DE FILHO PARA PAI
(Por Fabio Adiron)
Pai Eu sei que você está em
estado de choque. Mal eu acabei de nascer e vieram te contar que eu tenho um
nome diferente daquele que você me deu. Eu ouvi o médico falando que eu sou
Down. Não sei bem o que é isso, mas percebi que não é bom. Você e a mamãe
choraram muito e ainda estão com cara de velório. Eu estive me olhando e não
encontrei nada que parecesse estranho. Não tenho antenas nem parafusos. Mas
todo mundo que entra no quarto me olha com cara de espanto e, para vocês com
cara de pena. Tenho certeza que esse momento vai passar e vocês vão me tratar
como qualquer outro filho, mas eu fiquei preocupado com algumas coisas que eu
ouvi, por isso achei melhor te escrever antes que seja tarde.
Disseram que eu não vou
conseguir fazer um monte de coisas. Como é que alguém tem a coragem de falar
isso? Eu não tenho nem um dia de vida e já estão me condenando? Pai, não
acredite em ninguém. Mas acredite em mim. Tenho certeza que, se você e a mamãe
confiarem que eu vou fazer de tudo, vocês vão me ajudar em cada conquista. Pai,
se eu demorar um pouco mais para fazer as coisas que as outras crianças fazem,
não fique ansioso, isso só piora a situação. Brinque bastante comigo, deixe eu
tentar fazer de tudo. Me dê a mão quando eu precisar, mas não me impeça de
aprender e conseguir me virar.
Também ouvi um doutor
geneti-qualquer-coisa te dizer que você deve procurar umas entidades
excepcionais, que eu vou precisar ir para uma escola especial. Pelo que eu
entendi, são lugares onde pessoas que nasceram com alguma coisa diferente vão.
Até parece bonito, mas isso quer dizer que não vão deixar eu brincar com
crianças de todos os tipos? Que eu não vou poder aprender nada além de
convivência social? Quero ir à escola com todas as crianças, afinal somos todos
diferentes e é na diversidade que aprendemos a não ter preconceitos.
Gostei daquele casal que
veio aqui com a menininha que também tem a tal da síndrome que eu tenho. Aquele
que falou que ela vai numa escola comum. Você reparou que ela veio ler o meu
nome na pulseira da maternidade? É verdade, ela não sabia o que queria dizer
RN. Mas os pais dela explicaram direitinho. Eu sei que, se você acreditar em
mim, e me mandar para uma escola comum, você e a mamãe vão ter mais trabalho.
Em compensação, eu vou ter a chance de ser um adulto de verdade no futuro e não
uma preocupação constante que vocês tenham de carregar para o resto da vida.
Não é melhor dar trabalho agora no começo?
Dizem também que vocês terão
de enfrentar pessoas mal educadas e preconceituosas. Mas vocês não me
defenderiam de qualquer forma se eu não tivesse o que tenho? Além do que, você
sabe que filhos, normalmente, vivem além dos pais. Se vocês não pensarem nisso
agora, o que acontecerá comigo quando vocês partirem? Pai, eu acredito e confio
em você e na mamãe. Tudo que eu preciso é que vocês tenham essa mesma confiança
em mim. Beijos da sua mais nova filha.
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